O Astrolábio Gigante de 400 Anos que Quebrou Todos os Recordes
Um instrumento astronômico mogol do século XVII, considerado o maior já produzido, foi arrematado por R$ 13,7 milhões na Sotheby's de Londres — e sua história atravessa impérios, realezas e séculos de silêncio.
O Supercomputador de Outro Século
Na quinta-feira, 29 de abril de 2026, a casa de leilões Sotheby's, em Londres, foi palco de um momento histórico: um astrolábio de latão produzido há mais de quatro séculos foi arrematado por US$ 2,75 milhões — aproximadamente R$ 13,7 milhões —, batendo o recorde mundial para um objeto da sua categoria. O valor anterior, de pouco menos de US$ 1 milhão, havia sido estabelecido em 2014 com a venda de um exemplar otomano do século XV.
Mas o que é exatamente um astrolábio? Historiadores costumam compará-lo ao smartphone moderno: um único aparelho capaz de executar dezenas de funções. Com suas camadas interligadas de discos metálicos, o instrumento calculava o nascer e o pôr do sol, media altitudes, latitudes e distâncias, mapeava cidades e constelações, e até auxiliava na elaboração de horóscopos. Uma tecnologia portátil e multifuncional, séculos antes de existir eletricidade.
— Benedict Carter, chefe de Arte Islâmica e Indiana da Sotheby's
O exemplar leiloado vai além de qualquer padrão da época. Com 46 centímetros de altura, 30 centímetros de diâmetro e pesando 8,2 quilos, ele é quatro vezes maior que um astrolábio típico produzido na Índia do século XVII. Antes do leilão, foi a primeira vez na história que a peça foi exibida publicamente.
Nascido em Lahore, no coração do Império Mogol
A história desta peça começa em 1612, na cidade de Lahore — hoje pertencente ao Paquistão. Na época, Lahore era um dos mais importantes polos intelectuais e científicos do Império Mogol, a poderosa dinastia turco-mongol que governava grande parte do subcontinente indiano entre os séculos XVI e XIX.
O astrolábio foi encomendado pelo nobre mogol Aqa Afzal, governante da cidade, que tinha uma exigência clara: queria um instrumento de grandes proporções. A tarefa foi confiada a dois irmãos, Qa'im Muhammad e Muhammad Muqim, mestres artesãos da renomada "Escola de Lahore".
O resultado foi extraordinário. As gravações na superfície do metal incluem os nomes e as posições de 38 estrelas e as coordenadas de 94 cidades — entre elas Meca, Lahore, Caxemira, Ajmer e Bijapur. As marcações angulares são subdivididas até um terço de grau, um nível de precisão impressionante para qualquer época.
Exemplo de astrolábio islâmico em latão — instrumento que marcou a ciência medieval por séculos
Uma Jornada pela Realeza Indiana
Após a queda do Império Mogol, instrumentos científicos excepcionais passaram a circular entre as elites como símbolo de prestígio — equivalentes a joias e raridades. O astrolábio de Lahore não foi exceção. Em algum momento antes do século XX, ele migrou para a coleção real de Jaipur, cidade no atual estado indiano do Rajastão.
Sawai Man Singh II, o último marajá a governar Jaipur, herdou a peça e a manteve consigo mesmo após abdicar do trono em 1949, com a independência da Índia. Quando faleceu em 1970, o astrolábio foi herdado por sua esposa, a Maharani Gayatri Devi, que mais tarde o vendeu para uma coleção particular — onde permaneceu em silêncio por décadas, até chegar à Sotheby's.
A trajetória do objeto — do ateliê de Lahore à corte mogol, da realeza indiana a colecionadores anônimos, e finalmente ao grande público em um leilão milionário — é em si mesma uma lição de história viva.
A Sotheby's, uma das maiores casas de leilão do mundo, sediou a venda histórica em Londres
A Ciência como Arte e Poder
O que torna este astrolábio único não é apenas o tamanho ou o preço. É a síntese que ele representa: a fusão entre ciência e espiritualidade, entre precisão matemática e expressão artística, entre culturas diferentes que se encontraram no subcontinente indiano.
As inscrições combinam o persa e o sânscrito, dois sistemas linguísticos de tradições distintas, refletindo a circulação do conhecimento entre povos e regiões naquele período. Entre as funções mais simbólicas do instrumento estava a determinação da direção de Meca — a qibla — usada em mesquitas pelos muezins para calcular os horários de oração.
Hoje, apenas outro astrolábio assinado pelos mesmos irmãos é conhecido. Ele está preservado no Iraq Museum, em Bagdá, mas possui dimensões muito menores, com menos de cinco polegadas de diâmetro.
O Recorde e o que Ele Diz Sobre Nós
O valor de US$ 2,75 milhões alcançado na Sotheby's supera em mais de duas vezes o recorde anterior — estabelecido há mais de uma década com um astrolábio otomano do século XV. Este salto dramático reflete não apenas a raridade e a beleza do objeto, mas um apetite crescente do mercado global por artefatos que unem ciência, arte e história de maneira indissociável.
Especialistas apontam que o estado de conservação excepcional, a trajetória ligada à realeza indiana e o nível técnico incomum da peça foram os principais motores do preço final. Em um mundo saturado de objetos produzidos em série, um instrumento como este — feito à mão, com precisão milimétrica, há mais de quatro séculos — carrega um peso simbólico que simplesmente não tem equivalente.
A peça agora pertence a um novo colecionador anônimo. Mas sua história, finalmente tornada pública, não pertence a ninguém — e a todos. É o legado de Lahore, dos irmãos artesãos, do Império Mogol e de séculos de curiosidade humana diante do céu.
Você sabia? Os astrolábios foram desenvolvidos originalmente na Grécia Antiga por volta do século II a.C., mas foi no século VIII que se espalharam pelo mundo islâmico, onde atingiram seu ápice técnico e artístico. A Escola de Lahore, da qual os criadores deste exemplar fazem parte, era considerada um dos centros mais avançados do mundo para a produção desses instrumentos.
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